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Movimento Negro

UM OLHAR PANORÂMICO SOBRE O MOVIMENTO NEGRO EM ALAGOAS

* Helcias Pereira

Era uma das noites próxima ao 20 de novembro de 1986, quando ao passar pela Praça dos Palmares no Centro de Maceió, pude perceber uma espécie de manifesto, o qual chamou-me a atenção pela temática. Então resolvi parar para escutar uma mulher negra falando de Zumbi dos Palmares e de uma homenagem que seria feita aos guerreiros quilombolas na Serra da Barriga na cidade de União dos Palmares. A partir daquele momento, entendi que existia uma articulação denominada Movimento Negro de Alagoas.

Hoje, mais de 20 anos passados, estou convicto que só quem participa como sujeito da história é quem sabe verdadeiramente reconhece-la e dar valor aos seus avanços.

Em 1988, passei a entender melhor a estrutura do Movimento que antes tinha uma entidade chamada Associação Cultural Zumbi – ACZ , que naquela oportunidade já enfrentava algumas dificuldades em manter coesos seus participantes…  Alheios a essas questões políticas, fundamos em maio daquele ano, em pleno centenário da “abolição da escravatura” o Mocambo Anajô que na condição de filiado a Entidade Nacional Quilombo Central dos Agentes de Pastoral Negros do Brasil – APNs, nos apresentamos para contribuir na organização do Movimento Negro Alagoano, é fato que já tínhamos uma espécie de parceria com alguns grupos de Teatro Popular e de Danças afros nas instâncias das Paróquias, junto a Pastoral de Juventude do Meio Popular – PJMP e as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs.

Naquela época atuamos com os companheiros Betinho e César Araújo que formaram o grupo de dança Nagô Axé do Bairro da Jatiúca, posteriormente se transformando na Banda Afro Cultural Mandela, sendo esta a primeira banda de percussão do Estado de Alagoas a trabalhar as temáticas negras orientando-se pelo som percussivo das famosas bandas Olodum e Ilê aiyê.

Posteriormente, vários grupos culturais foram formados nas periferias, a exemplo das bandas: Zumbi, Ilê-Axé, Axé Zumbi, Lundu, Arranha Céu, Tambores do Trapiche, Meninos da Praça, e várias outras…. Os grupos de dança afro: Ekodidé e Imole-Orun abrilhantaram vários eventos importantes.

Percebendo a necessidade de uma melhor organização nas atividades coletivas, em 1992 propomos a criação da Coordenação de Entidades Negras de Alagoas – CENAL a qual fui eleito coordenador geral tendo como parceiros o Prof. Zezito Araújo, a Enfermeira Elizete Santos, o então aluno de direito Alberto Jorge (Betinho) entre outros companheiros, e juntos buscamos a união dos segmentos, principalmente durante as comemorações do dia Nacional da Consciência Negra e outras datas importantes, além de procurarmos interagir junto a Universidade Federal de Alagoas através do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros – NEAB que na prática foi uma das melhores parcerias durante todo tempo.

Devo lembrar que concomitantemente a essas atividades, existiam dezenas de grupos de capoeira igualmente importantes na história, bem como, as casas de religiões de matrizes africanas que serviam principalmente de suporte espiritual para muitos de nossos militantes.

No entanto, apesar de termos participados de pelo menos três Encontros Nordestinos do Movimento Negro, sendo o último em Salvador – BA, apenas em 1994 conseguimos consolidar uma maior articulação com o Movimento Negro Nacional que nas articulações para a realização do ENEN (Encontro Nacional de Entidades Negras) e posteriormente a formação da CONEM (Coordenação Nacional de Entidades Negras), conseguimos nos fazer presentes nas reuniões nacionais, mesmo arcando com as despesas de forma pessoal… Foi nessa articulação que elaboramos o Projeto de Lançamento dos 300 anos de Zumbi, cujas programações 94/95 foram as mais importantes para Maceió e a cidade de União dos Palmares. Chegamos a contratar o Trem da Liberdade, que trasladou centenas de militantes nos seus vagões até União dos Palmares.

Em julho de 1995 aconteceu a maior homenagem a Zumbi e demais quilombolas, quando em seu encontro nacional em Maceió, os APNs chegando no trem da liberdade, recebidos pela Bandas afros de União dos Palmares, subiram a Serra da Barriga em plena madrugada para a realização de uma grande vigília… Ali estavam agentes de pelo menos 16 Estados do Brasil e alguns estrangeiros parceiros da caminhada, os quais contaram com o carinho e  apoio dos grupos e militantes de Alagoas.

Recentemente, mesmo com avanços significativos por conta das lutas históricas, tendo o Governo de Ronaldo Lessa criado setores importantes para beneficiarem a comunidade negra em geral, a exemplo da Secretaria Especializada de Defesa e Proteção das Minorias, a qual através de suas gerências procurou desenvolver políticas públicas junto as Comunidades Remanescentes de Quilombo; Casas e Federações de Religiões de Matrizes Africanas; a comunidade negra em geral; a criação do Núcleo Temático Identidade Negra na Escola que busca incansavelmente efetivar a Lei 10.639/03; bem como outros avanços importantes, tipo:a criação da Comissão de Apoio as Minorias pela Ordem dos Advogados do Brasil – OAB; a criação da SEPPIR, SECAD, e demais setores no Governo Lula.

Mesmo assim, mediante posturas equivocadas de algumas “lideranças”, os grupos de base, apesar de continuarem firmes em suas lutas, foram prejudicados por parte de alguns de seus representantes, causando uma situação de descrédito generalizado, fragmentando a caminhada em sua contextualidade, desta forma, enfraquecendo a luta e a visibilidade do Movimento.

Por fim, volto a questão da Serra da Barriga que representa o palco da resistência do povo quilombola naquele solo sagrado, recebendo na atualidade o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, e esse por sua vez, capaz de fomentar o maior fluxo de visitantes em toda história, sendo um “divisor de águas” em se tratando de vários avanços importantes, incluindo a geração de emprego e renda, alem de valorizar enormemente a cidade de União dos Palmares e a Serra da Barriga entre variadas demandas. A construção do Parque Memorial com sua arquitetura eminentemente afro-ameríndia, que dentre outros importantes objetivos visa possibilitar o resgate histórico e o bem-estar de cada visitante na Serra da Barriga há muito é sonhado e nunca de fato esperado com tanta ansiedade, mesmo assim, enfrentou uma série de comportamentos equivocados, mesquinhos e antiéticos. No entanto, o que sinto com convicção é que todos os setores da sociedade, que queiram trabalhar a temática negra dentro da dimensionalidade histórica do Quilombo dos Palmares, entre outras temáticas, poderão faze-lo in loco, de forma dinâmica e imensuravelmente agradável.

Finalizando, quero saudar a todos (as) em yurubá e banto, respectivamente.

Olorum kolofé axé = Que o Senhor Deus do firmamento nos dê bênçãos e força.

Sarava N´Zambi! = Deus seja louvado!

 

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*Secretário de Cultura da ONG ANAJÔ e Membro-Consultor do Instituto Magna Mater

 

Categorias:Opinião
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