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Mini-entrevista

O BLOG Anajô realizou uma mini-entrevista com Patrícia Mourão.

 

Secretária Executiva do Instituto Magna Mater, organização não-governamental que idealizou e captou recursos para a instalação do Parque Memorial Quilombo dos Palmares, construído no Platô da Serra da Barriga – local sagrado, palco de luta e sede administrativa do maior e mais importante quilombo, o Quilombo dos Palmares.

 

 

1. Na sua opinião qual a importância de discutir as "Memórias e Palavras da Literatura Negra" – tema da 28ª edição do encontro afro-alagoano de educação realizado pela Gerência Étnico Racial da SEEE dentro da programação oficial na III Bienal do livro no Estado de Alagoas?

A cultura e os saberes africanos foram, durante séculos, transmitidos apenas através da oralidade. É importante ressaltar que a África é um continente com múltiplas e diferentes expressões culturais, artísticas e étnicas. Resgatar, divulgar e promover, tanto a Literatura Negra como a Escrita Negra em geral, é dar uma nova dimensão à forma de transmissão de todas essas expressões, numa escala muito maior.

 

2. Como você avalia a produção da literatura negra (conteúdo e autores negros)? O que precisa ser aperfeiçoado?

Já existe uma sólida produção literária e intelectual por parte de autores negros – tanto africanos como afro-americanos que precisa ser mais conhecida pelo grande público. Não creio que haja alguma coisa a ser  "aperfeiçoada", pois acho que comparações podem gerar equívocos decorrentes do eurocentrismo, que tem estabelecido os padrões estéticos e artísticos. Acredito principalmente na urgência e na necessidade de dar visibilidade a essa crescente produção, não apenas no Brasil, mas no mundo. 

 

3. A gerente de educação étnico-racial, Arísia Barros, lançará oficialmente o livro que ela produziu intitulado "A pequena África chamada Alagoas”,  tema que remete à reflexão desde a capa. De que forma você avalia a contribuição desse material na efetivação da Lei 6.814/07? (estadualização da Lei 10.639/03, para o estudo da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana na grade curricular de escolas públicas e privadas)

Acho de fundamental importância a publicação desse livro –  sendo uma das primeiras contribuições alagoanas – no processo de construção de uma literatura e de uma produção intelectual negras. Para a efetivação da Lei 6.814/07 (estadualização da Lei 10.639/03), muitos instrumentos não eurocêntricos poderão ser usados, como o Parque Memorial Quilombo dos Palmares (que considero uma opção de vivência e de experimentação. Entretanto, a criação de uma bibliografia temática é um divisor de águas para a perpetuação de forma mais sistemática de todos os saberes acumulados ao longo dos séculos, como também no reposicionamento das perspectivas, através de um olhar afro-descendente.

 

4. Que livros e autores foram referência nos estudos e formação dos membros do IMM, para a execução do projeto que originou o Parque Memorial Quilombo dos Palmares?

Primeiro, os “clássicos”: “Palmares – A Guerra dos Escravos” do Décio Freitas (e paralelamente “República de Palmares – Pesquisa e comentários em documentos históricos do século XVII” do Décio, editado pela EDUFAL) e “O Quilombo dos Palmares” do Edison Carneiro. Lemos absolutamente todos os livros e teses sobre esse assunto, e como referência bibliográfica sugiro acessar o nosso site: http://www.quilombodospalmares.org.br, na parte de “livros”, mas diria que estes dois são a base de tudo que se escreveu sobre esse tema. Como livro de leitura imprescindível hoje, como “resumo” e com uma visão mais moderna, recomendo “Palmares” de Flavio Gomes – professor de História da UFRJ e militante do Movimento Negro.

Artur Ramos, Prof. Luis Sávio de Almeida, Prof. Edson Moreira, Luiz Renato Vieira, Matthias Rohrig Assunção, Câmara Cascudo, Raul Lody e tantos outros, foram leituras obrigatórias para a construção do conteúdo histórico e cultural do Parque. Esse processo de criação do conteúdo foi também muito enriquecido pela tradição oral da cultura negra, onde casas religiosas de matriz africana foram nossas principais fontes.

Com a consultoria permanente do Helcias Pereira e do Prof. Zezito Araújo definimos também um aspecto importante do Parque: que língua seria predominante? Yoruba – que ganhou força e espaço através da difusão da cultura baiana neste último século, ou Bantu – a principal influência de Palmares? Como o Parque tem o objetivo de privilegiar o consenso das interpretações históricas e a valorização das principais expressões afro-brasileiras, contemplamos ambas – Yoruba principalmente nos aspectos religiosos do Parque, e Bantu na nomenclatura dos espaços construídos.

Entendemos que tínhamos o dever de colocar também referências poéticas negras. Para isso, convidamos o Lepê Correia, que  escreveu um poema – com terminologia fortemente Bantu – exaltando a cultura e a arte afro-brasileira e que pode ser ouvido na voz do Djavan.

 

 5. O Parque já se tornou um importante capítulo na história da Serra da Barriga. E na sua vida, de que forma foi escrito e qual a importância?

 Na minha vida esse capitulo foi e continua sendo escrito a muitas mãos. É uma coletânea de textos, poemas  e divagações, onde a liberdade de criação, questionamentos e reflexões tem sido a nossa principal vertente. É uma obra conjunta de muitos autores que, com generosidade e dedicação, estão ainda escrevendo essa estória.

 

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* Produção de Helciane Angélica – Jornalista e Presidente da ONG Anajô

 

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