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Mini-entrevista

 
 

 

O Parque Memorial Quilombo dos Palmares foi oficialmente inaugurado no dia 19 de novembro de 2007.  Veja a entrevista realizada pela jornalista Helciane Angélica, diretamente da Serra da Barriga em União dos Palmares com o arquiteto Alex Barbosa, responsável pelo projeto do primeiro complexo arquitetônico de inspiração africana do continente americano, um museu a céu aberto que homenageia todos os guerreiros do Quilombo dos Palmares.

 

 

 

            Breve currículo: Alex Teixeira Barbosa

 

É arquiteto desde 1979, iniciou seus estudos na Universidade de Buenos Aires, deu continuidade em Rosário na Argentina e concluiu na Pontifícia Universidade de Santa Úrsula no Rio Grande do Sul. Possui cursos complementares de arquitetura nas áreas: arquitetura paisagismo e ambientação no Brasil, Argentina e Inglaterra.  

Artista plástico há 35 anos, já expôs na Inglaterra, Argentina, Cuba e França. Principais projetos: Memorial República dos Palmares; Paisagismo no Condomínio Aldebaran em Maceió; Casa do cineasta Celso Brandão; Restaurante Temático (nordestino) sobre o Brasil em Londres.

 

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1.     Quando o senhor foi convidado para integrar a equipe do Instituto Magna Mater na construção do Parque Memorial Quilombo dos Palmares?

Aproximadamente há dois anos. Eu fui procurado para dar continuidade ao projeto que por motivos superiores ainda não tinha sido aprovado. Então, me pediram para dar continuidade e, realmente, criar o projeto para Serra da Barriga.

 

 

2.     Que livros e autores influenciaram na pesquisa para viabilizar o projeto arquitetônico?

Muitos e muitos livros. Não poderia criar uma nova filosofia nem um Wall Disney, nós tínhamos que criar uma coisa com pés no chão. Um Parque Temático no caso, mas algo que não tivesse delírios nem sonhos, traçado na própria história, que existe em grandes museus, na Universidade Federal da Bahia, no Museu do Negro na Bahia, Fundação Joaquim Nabuco em Pernambuco, fundações mineiras e cariocas; e aqui em Maceió, no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Eu chamei oito pessoas que paralelo a mim trabalharam na pesquisa, enquanto isso eu fazia o projeto.

 

 

       3.  A pesquisa se deteve em Alagoas e vários estados?

Em outros estados e onde existissem quilombolas. No caso, eu viajei para Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Bahia, Maranhão, então, eu colhi detalhes arquitetônicos de conhecimento do negro. E como arquiteto, sabemos, que a base da arquitetura negra por tudo que se aplica a Serra da Barriga não poderia ter modismos, e sim, a palha, madeira, o barro e a pedra, material encontrado em abundância.

 

 

        4.    Precisou ir até o continente africano para se inspirar?

Eu fui ao continente africano há muito tempo, e lá eu comecei a passear em todos os países ou áreas que os escravos saíram. Era do meu interesse saber o material consultivo e me espantou a qualidade arquitetônica deles. Mesmo na Universidade com uma ótima biblioteca, na época de estudante, a gente nunca foi informado sobre a exuberância arquitetônica negra, e eu só fui tomar conhecimento disso na África.

 

 

5.     Que critérios foram considerados essenciais para a construção do projeto arquitetônico?

Em primeiro lugar os costumes negros, como eu falei, não poderíamos transformar isso aqui num Wall Disney.

 

 

6.     Quais as dificuldades enfrentadas ao longo desses dois anos de trabalho (sensibilização, pesquisa e obras)?

A maior dificuldade foi a quase inexistência de bibliografias. A história negra quase que não tem uma história, porque tudo foi queimado, tudo foi destruído.

 

 

7.     Nesse tempo, o Senhor teve contato direto com os moradores da Serra da Barriga e quilombolas, como foi a recepção deles em relação ao projeto?

Durante esses dois anos eu fiz questão de conviver (…) existem familiares de índios aqui também, depois vieram os negros e eu tive que ter informações e sentir o calor humano deles, e hoje até compadre eu sou. Tinha que fazer alguma coisa fidedigna e não algo que parece um conto (…) o maior medo era pecar por excesso. Graças a Deus, o Ministro Gilberto Gil, o Zulu [Presidente da Fundação Cultural Palmares] e historiadores negros nos deram os parabéns.

 

 

8.     Dentre os espaços temáticos construídos, qual te deu mais satisfação em produzir?

Todos! (risos) Todos têm sua particularidade, por exemplo, nós fizemos uma infra-estrutura de um Parque, então, nos banheiros. Lógico, as pessoas estranharam porque eu coloquei materiais de ponta, como o granito e louça sanitária boa, e o exterior é todo em taipa. Agora, eu tenho certeza que se Zumbi fosse vivo hoje e tivesse que fazer um banheiro, seriam utilizados os mesmos materiais. Fizemos também uma lavanderia para os moradores, para evitar que fossem lavadas roupas na Lagoa Sagrada, então, hoje temos um serviço de outro mundo.

 

 

9.     Em relação às pessoas portadoras de necessidades especiais, que cuidados foram estabelecidos para eles também terem acesso ao PMQP?

Infelizmente, a Serra da Barriga fica no alto, tão alto quanto o Cristo Redentor. (…) Eu também sou deficiente físico e tive um cuidado maior, eu tenho uma perna de platina depois de um acidente automobilístico, e que me impossibilita a ter acesso a alguns lugares. Por experiência própria e por reconhecimento ao problema existente, todo o Parque poderá ser visitado por cadeirantes, muletas e qualquer outro tipo de deficiência física. Inclusive, eles terão o prazer de sentar e escutar a história através da alta tecnologia (…) existe banheiros para deficientes físicos também.

 

 

10.  Quais as suas perspectivas para a produção de novos projetos arquitetônicos que abordem a questão étnica-racial?

Olhe, por mim, eu faria em cada Estado que tivesse vestígios quilombolas… eu faria, não digo um templo, mas um espaço cultural (…) melhorando e purificando a cultura e a raça.

 

 

         11.  Qual a representatividade do PMQP na sua vida?

Na minha vida, foi um presente que Deus me deu através de Ganga Zumba e de Zumbi. Qualquer arquiteto no meu lugar estaria super feliz, super realizado. (…) Para mim, foi o projeto mais significante da minha vida (…) espiritualmente, esse foi o primeiro que me tocou.

 

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