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Entrevista especial

 A Presidente do Anajô, Helciane Angélica (foto) foi entrevistada pela jornalista Renata Silvestre (O Jornal) que obteve mais informações sobre a cultura afro-brasileira, os 120 de Abolição da Escravatura e conheceu um pouco dos objetivos e atuações do Centro de Cultura e Estudos Étnicos Anajô. A repórter fez uma matéria especial sobre as atividades políticas-culturais nesse mês de maio reflexivo, que será publicada na edição deste domingo (01.06.08).

Confira a entrevista!

1. O que comemorar 120 anos depois da abolição da escravatura?

Helciane Angélica: São 120 anos de abolição não-conclusa! As lideranças dos mais variados segmentos afros não fazem festa, e sim, protestam por melhores condições para o povo afro-brasileiro. Porém, não podemos nos esquecer dos avanços como: as políticas de ações afirmativas como as cotas raciais que ampliou o número de negros e negras com formação superior; as Leis contra o racismo; registro das comunidades quilombolas; fortalecimento do movimento negro nacional; conferências nacionais e internacionais sobre a Promoção da Igualdade Racial; a inclusão do estudo da História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas (10.639/03); a ampliação da mídia afro; dentre outros. Mas temos muito o que avançar e lutar, ecoar  verdadeiramente o nosso grito de liberdade.

2. Contra o que ainda é preciso lutar e resistir nos dias atuais?

Helciane Angélica: Vivemos há 120 anos uma resistência afro-cultural, onde lutamos contra a falsa democracia racial no Brasil, a intolerância religiosa, o racismo institucional, contra as condições subumanas que as comunidades remanescentes de quilombo enfrentam e principalmente por oportunidades iguais de desenvolvimento. Queremos e precisamos ter o devido reconhecimento.

3. Como está a preservação da cultura afro no Brasil, em especial, Alagoas?

Helciane Angélica: As questões étnicos-raciais são propagadas nos mais variados setores. Existem milhares de grupos artísticos-culturais no Brasil, organizações políticas que defendem os direitos do povo afro-descendente; vários elementos folclóricos de origem negra como o maracatu, taieira, guerreiro, coco de roda, baianas e outros; os blocos afros, afoxés… Enfim, todos fortalecem a resistência afro-cultural e a identidade étnica do nosso povo, inclusive, em nosso Estado.

4. Quais são os aspectos mais importantes dessa cultura e em que ela está mais preservada e mais descaracterizada?

Helciane Angélica: A cultura afro-brasileira é uma herança forte, presente em nosso cotidiano e que se manifesta de várias formas seja no jeito alegre de ser ou pelas expressões de linguagem, principalmente no Nordeste onde são faladas muitas palavras de origem banto, são traços da africanidade. Tem também a culinária, as danças, as expressões culturais como a capoeira presente em vários países e as religiões de matrizes africanas. E o que provoca a descaracterização desses elementos, é simplesmente o desconhecimento sobre a importância dessas heranças culturais e o preconceito.

5. Quais as dificuldades enfrentadas para manter as tradições antepassadas?

Helciane Angélica: São muitas! Uma delas é a grande pressão ideológica que classifica a herança afro-cultural como “inferior, feia, vulgar, coisa do demônio”, dentre outros termos pejorativos. Outro ponto que precisa avançar mais é a abordagem da mídia, que explora superficialmente às questões étnicos-raciais ou repassa informações pontuais e ultrapassadas, voltadas para datas específicas.

6. De que forma o preconceito se manifesta fortemente nos nossos dias?

Helciane Angélica: Na verdade todos nós temos preconceito em relação a algo, mas precisamos aprender a não externar, ou seja, temos que aprender a respeitar às diferenças. Somos um país multicultural, as pessoas e suas tradições devem ser respeitadas. Porém os afro-descendentes ainda amargam conseqüências dolorosas como o desemprego ou salários inferiores; moradia inadequada, exemplo das favelas; analfabetismo ou dificuldades para concluir os estudos; violência, as mulheres negras são as que mais sofrem abusos sexuais, e também, devido à falta de oportunidades o número de negros é maior nos presídios; além do preconceito racial que ainda é demonstrado. Enfim, basta acompanhar os índices de desenvolvimento humano para visualizar o povo negro nos pontos mais baixos, nas condições mais adversas de sobrevivência.

7. E quando o preconceito parte do próprio negro, essa situação também é comum, por quê? Afinal são tantos séculos de massacres que muitos negros ainda acreditam que são inferiores, como incutir nessas pessoas auto – estima?

Helciane Angélica: Não podemos tolerar o preconceito racial, independente, de quem realiza. Ninguém acredita ou gosta de ser rotulado como inferior, e esse tipo de preconceito, entre negros só acontece devido ao desconhecimento da importância sócio-político-cultural que essa etnia trouxe para o país. A identidade étnico-cultural só pode ser manifestada quando o próprio indivíduo valoriza seus traços e a história do seu povo. E na minha opinião o ato de renegar a sua história é o que realmente aplica a inferioridade!

Sobre a ONG:

1. O que é a ONG Anajô?

Helciane Angélica: O Centro de Cultura e Estudos Étnicos Anajô é uma pessoa jurídica de direito privado sem fins lucrativos. Anajô é uma palavra de origem africana que significa liberdade.

2. O porquê dessa criação?

Helciane Angélica: Bom, o Anajô tem uma trajetória antiga desde 1988, foi vinculado aos Agentes de Pastoral Negro (APNs), entidade nacional do movimento negro, e pretende retomar essa parceria. O Anajô rearticulou-se há dois anos, desde então, vem contribuindo para o desenvolvimento do movimento negro alagoano e fazendo atividades de formação para públicos diversos.

3. Qual seu objetivo?

Helciane Angélica: Desenvolver atividades que promovam a identidade étnico-racial; propagar a História do Quilombo dos Palmares e guerreiros quilombolas; combater a discriminação racial, homofobia, xenofobia, intolerância religiosa e pré-conceitos correlatos; interagir com outras entidades que trabalham a questão étnico-racial; desenvolver atividades político-culturais que promovam a reflexão sobre o cotidiano do povo afro-brasileiro; dentre outros.

Categorias:Anajô
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