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ARTIGO: ABDIAS NASCIMENTO “NA SERRA DA BARRIGA”

Abdias do Nascimento (Franca/SP, 14 de março de 1914 — Rio de Janeiro/RJ, 24 de maio de 2011) dedicou toda uma vida pela efetivação da igualdade racial.

 

Texto escrito por: Helcias Pereira (*)

 

Era noite de sábado no dia 14 de maio de 1988. Cheguei animado na casa de meus pais comentando sobre a participação em um novo grupo do Movimento Negro, chamado Mocambo ANAJÔ que ajudei em sua idealização. Meu pai à época um babalorixá pernambucano e sem muita leitura como ele mesmo se alto afirmava, puxou assunto sobre a questão e me fez uma pergunta um tanto inusitada e embaraçosa: “Isso tem haver com a FRENTE DOS NEGROS que Getúlio acabou?”, indagou. “Que frente dos negros? Que Getúlio?” Também perguntei sem jamais esperar de meu pai tal pergunta. “Não sei dizer muito filho, só sei que era um movimento dos negros que foi cassado por Getúlio”. Claro, depois de pensar rapidamente, entendi que se tratava do ex-presidente da República Getúlio Vargas lembrando-me de uma breve leitura que fiz sobre a nova República. Tal situação ficou arraigada em minha memória.

Tempos depois, durante as comemorações do “20 de novembro” – Dia Nacional da Consciência Negra, em pleno platô da Serra da Barriga, percebi no meio de tantos militantes e personalidades, certo homem negro vestindo um abadá colorido de fina elegância. Tinha barba e cabelos ligeiramente alongados, cuja altivez no olhar abrilhantava-se com um leve sorriso, certamente, pela satisfação de estar junto aos seus, pisando aquele solo sagrado. Não custou e na primeira oportunidade fui apresentado ao mesmo, que me cumprimentou e também abraçou com cordialidade, foi quando constatei que se tratava de Abdias Nascimento, um dos baluartes do Teatro Experimental do Negro do Rio de Janeiro e membro da Frente Negra Brasileira.

Pronto! Como num estalar de dedos, lembrei do meu velho pai: “tem haver com a FRENTE DOS NEGROS que Getúlio acabou?”… Eu tinha pouca consciência da história, mas soube perceber naquele momento quão grande era a simbologia e importância daquele apertar de mão. Abdias assim como Zumbi, tornou-se para mim, mais uma referência no avivar de minha militância, ainda que no seu primórdio.

Através dos AGENTES DE PASTORAL NEGROS DO BRASIL (APNs) – entidade esta considerada por Abdias – tive a oportunidade de nos momentos de formação, ler, ouvir e aprofundar temas sobre a história do Quilombo dos Palmares e seus desdobramentos na contemporaneidade. Foi com essa maneira diferenciada dos APNs em fazer movimento negro, que pude ler coletivamente e debater sobre as várias formas de resistência do povo negro brasileiro.

Também foi nessa caminhada que tomei conhecimento das grandes lutas e revoltas coletivas, a exemplo da balaiada, revolta da chibata, malês; da resistência dos grupos afro-culturais a exemplo dos Filhos de Ghandi; das resistências das comunidades de fé de matriz africana na luta contra o intolerantismo religioso; dos grandes jornais da imprensa negra nos anos 20 e 30 como o Clarim da Alvorada; das sesmarias e sociedades beneficentes de negros visando auto-valorização e ascensão sócio-cultural; das agremiações recreativas; e ainda: saber sobre o CCP – Centro Cívico Palmares, criado em 1926 em Campinas, que certamente fomentou a criação da FRENTE NEGRA BRASILEIRA – cujo 15 de setembro tornou-se também uma data no mínimo reflexiva mediante a sua importância histórica.

Hoje, ao saber que o malungo Abdias Nascimento está prestes a ser unificado ao solo sagrado da Serra da Barriga, outrora banhada pelo sangue dos guerreiros quilombolas palmarinos, nos resta aprofundar inerentes conhecimentos acerca dos bravos ativistas que fizeram valer a FRENTE NEGRA BRASILEIRA pelas suas intervenções políticas em sua década de existência, sobretudo, organizando, fomentando e politizando o povo negro brasileiro e toda sociedade afim.

Além dos diversos ativistas baluartes, Abdias é uma representação incontestável e vital para a dinamicidade dessa história. Seu nome será incontestavelmente agregado aos guerreiros de Palmares, e digo mais, sua história de imensuráveis contribuições já transforma-o como o nosso GANGA contemporâneo!

VALEU ABDIAS!

SARAVÁ MALUNGO…

 

 

  (*)  Helcias Roberto Paulino Pereira

Membro Diretor do ANAJÔ/APNs-AL

Membro da Equipe Técnica do CEASB/AL

Coordenador Nacional de Formação dos APNs

Conselheiro Nacional de Promoção da Igualdade Racial – CNPIR/SEPPIR

 

  1. 11 de novembro de 2011 às 16:16

    Painho deveria escrever um livro com todas as suas memórias e experiências no Movimento Negro!

  2. Gal Jatobá
    12 de novembro de 2011 às 11:12

    Lindo texto Helcias, é de fato uma bela homenagem, lindo texto.

  1. 11 de novembro de 2011 às 21:10

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