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UMA CULTURA, UM GESTO… VITAIS PARA A ORALIDADE AFRODESCENDENTE

Por: Helcias Pereira (*)

 

No passado em uma das comunidades da costa africana, margeando o Oceano Atlântico, uma tribo se preparava para celebrar a união de um jovem casal e a família inteira se envolvia para construir o novo lar. Por ordem do patriarca eram cortadas algumas palmeiras em número ímpar, nunca se cortava apenas uma, nem tão pouco muitas sem a real necessidade.

A palmeira era considerada sagrada porque de tudo se aproveitava! Do tronco que se transformava em sustentáculos para o pequeno “mukambu” (lugar de moradia), bem como, suas folhas que serviam na cobertura, das amêndoas faziam o azeite e temperavam os alimentos através do seu leite, e o palmito era saboreado, principalmente, durante a festa do casamento.

Durante esse período aconteciam “mushakas” (momentos de encontro com o criador), onde as famílias dançavam, cantavam e agradeciam a “Olorum” pelo novo feito. O patriarca deixava uma parte da palmeira (entre o troco e a parte do palmito) emergida sobre folhas, e a seiva que “chorava” ou “sangrava” era amparada por uma gamela, sendo recolhida no tempo certo pelos mais velhos.

Eis que ao recolher a seiva fermentada, constatava-se uma maravilhosa bebida, mais tarde chamada de vinho do palmar, ou simplesmente vinho da palma. No início da festa era apresentado aos presentes, e os mais velhos iniciavam a partilha onde todos portavam consigo suas “quengas”, e após cada um(a) pegar seu bocado, todos eram convidados a erguer as mãos ao alto, cujo patriarca mais velho, agradecia a Olorum pelas dádivas da Mãe Terra, levando a todos derramarem parte da bebida ao chão em forma de oferenda e agradecimento aos ancestrais por terem aprendido e ensinado aos seus em fazer essa maravilhosa bebida que ao som dos tambores e muita dança, misteriosamente causava um êxtase de felicidade a toda comunidade.

Nos tempos atuais, mediante tantas estratégias de aculturação, o povo negro pode até não saber dessa origem, no entanto, o gesto de derramar um pouco de bebida ao chão, ou seja: derrama UMA PRO SANTO não é em vão, mas ainda que sem suas raízes, permanece viva na memória e enriquece a oralidade que resiste.

 

(*) Helcias Pereira

Membro Diretor do ANAJÔ – APNs/AL

Membro da Equipe Técnica do CEASB/AL

Coord. Nacional de Formação dos APNs

Conselheiro do CNPIR/SEPPIR

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