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Archive for the ‘Especial: “mídia e questões étnicas-raciais”’ Category

Desabafo

3 de outubro de 2007 Deixe um comentário

O POVO NEGRO NA MIDIA BRASILEIRA

 Helcias Pereira*

 

É “interessante” como por décadas os meios de comunicação social trataram as questões étnico-raciais de forma pejorativa. Tornaram “naturais” as cotidianas entrevistas aos “jovens delinqüentes” de maioria absolutamente negra nos programas tidos como policiais, como se os únicos que se metem com drogas, furtos e outros delitos, são apenas negros e afro-descendentes. Por quê será?

Acredito que os interlocutores da mídia brasileira terão que se submeter a uma série de reflexões em torno dessa temática, haja vista que a população não agüenta mais tantas injustiças, estereótipos  e agressões generalizadas.

Como se não bastassem os papéis pejorativos e subalternos na maioria das novelas e programas humorísticos, alguns “agentes” da mídia, não externam a menor preocupação nas suas expressões preconceituosas, capazes inclusive de ofender institucionalmente todo um povo, mesmo existindo Leis Federais que classificam-nas como “crime de racismo”. Por exemplo: “temos que virar essa página negra da história”, “o País está à beira de um buraco negro”, etc. Pergunto, apesar do óbvio: Não estaria a mídia sendo uma ferramenta de exclusão e segregação do povo negro? Não seriam seus protagonistas e acionistas defensores camuflados da ideologia do branqueamento a serviço do “racismo cordial”, defendendo inclusive que o Brasil é um país democrático, como assim também são democráticas as questões étnico-raciais?

Até quando vão tentar esconder que esse país tem quase a metade do seu povo afro-descendente e que sua maioria sempre esteve condenada à miserabilidade por falta justamente de políticas públicas a seu favor? Quando vai acontecer um olhar mais crítico e não eurocêntrico por parte dos que dominam espaços importantes na mídia brasileira? Até quando eles pensam que o povo vai ficar a margem dessas questões?

 

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* Militante do movimento negro alagoano há 20 anos, foi gerente afro da extinta Secretaria de Proteção e Defesa das Minorias (Sedem) de Alagoas, atualmente, é Secretário de Cultura da ONG Anajô

Democratização da Comunicação, já!

3 de outubro de 2007 Deixe um comentário

Democratização da Comunicação, já!

 

 

Valdice Gomes*

 

No próximo ano, a imprensa completa 200 anos no Brasil. Não podemos deixar passar a oportunidade de aproveitar esse bi-centenário para provocar o debate sobre a mídia que queremos. Certamente não é este modelo que está aí: concentrador, monopolizado, a mercê de grupos econômicos e políticos proprietários de redes de rádio e TV. Até que ponto a mídia contribui reforçando a dominação de um padrão que não corresponde à realidade brasileira? Afinal, os dados do IBGE mostram que cerca de 50% da nossa população é formada por negros! Será que o espaço que ocupamos na mídia faz jus a esses números? .

É chegado o momento de cobrar a responsabilidade dos veículos de comunicação enquanto concessão pública para que atuem para a sociedade e comecem a promover ações visando a igualdade, educação para a tolerância e a diversidade existente no País. É hora também de questionar o conteúdo e a natureza das concessões públicas. Para isso, é preciso que o movimento negro se una aos demais movimentos sociais para pressionar o governo federal a convocar a 1ª Conferência Nacional de Comunicação.

A proposta dos movimentos, que tem o apoio da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), juntamente com os sindicatos filiados, como uma das 29 entidades integrantes do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), é de uma conferência nos moldes de outras como as de Saúde, Cidades, Segurança Alimentar e Cultura, precedida de etapas regionais e com eleição de delegados. Isso significa envolver a base da sociedade em etapas locais, estaduais e regionais que preparem o momento nacional do processo.

De acordo com a Constituição de 1988, a concessão pública de TV tem validade de 15 anos. Para que ela seja renovada, o governo precisa encaminhar pedido ao Senado, que pode aprová-lo com o voto de 3/5 dos senadores. No caso de rejeição, a votação é mais difícil. A proposta do governo deve ser submetida ao Congresso Nacional, que pode acatar a não renovação da concessão da emissora com os votos de 2/5 dos deputados e senadores. Antes da Constituição de 1988, esta decisão cabia exclusivamente ao governo federal. A medida democratizante, porém, não superou a verdadeira “caixa-preta” vigente neste processo, sempre feito na surdina e sem transparência.

Que este dia 5 de outubro marque o início de uma ampla mobilização envolvendo jornalistas e a sociedade na luta pela democratização da comunicação. Monopolizada, a imprensa cala quando convém aos donos. Sem a democratização da comunicação não haverá democratização da sociedade.

Nesse sentido, é urgente rediscutir os critérios de distribuição das concessões de rádio e TV, garantir mecanismos de controle social sobre a mídia e criar meios alternativos capazes de ocupar os espaços ‘grilados’ pelos que se auto-proclamam donos da comunicação e que controlam, ou tentam controlar tudo que se fala, escreve e vê no Brasil.

  

* Jornalista, Vice-regional NE 2 da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj),

 Vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Alagoas (Sindjornal) e Vice-presidente da ONG Anajô.