Histórico do Anajô

O Anajô é uma entidade ligada ao movimento negro alagoano, que se desenvolveu na Paróquia Santo Antônio no bairro do Jacintinho em Maceió (AL) na década de 1980. Um grupo de jovens realizava atividades que iam além das questões eclesiais, também discutiam e atuavam na comunidade em favor de saneamento básico, emprego, segurança, área de lazer, transporte, educação, cultura, etc. Todos possuíam uma visão crítica adquirida por meio de encontros e reuniões reflexivas sobre textos e artigos que colaboraram na formação pessoal.

No decorrer da sua trajetória conheceram segmentos que contribuíram significativamente na militância, a exemplo da Pastoral de Juventude do Meio Popular (PJMP), as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), Movimento de Educação de Base (MEB), Comissão da Pastoral da Terra (CPT), Pastoral Operária (PO), entre outros. Todos foram importantes no processo de conscientização sócio-política, sobretudo quanto a sua prática de fé cristã de forma crítica e sempre na busca constante de firmar compromissos com a causa dos oprimidos. A partir daí, alguns desses jovens se encaminharam para partidos políticos de esquerda, movimentos sindicais e culturais, inclusive, no Movimento Negro – com o intuito de contribuir na luta contra o racismo na sociedade e dentro da própria Igreja.

No dia 13 de maio de 1988, data escolhida estrategicamente, ocorreu a primeira reunião e fundação do Anajô com uma média de 15 jovens presentes na sala da PJMP no interior do prédio principal da Arquidiocese de Maceió. O debate se concentrou em torno dos 100 anos da “Abolição da Escravatura” e a ausência de políticas de inclusão em favor do povo negro após a Lei Áurea assinada pela Princesa Izabel. O Grupo já tinha subsídios para debater de forma crítica os fatos da história, a importância da Serra da Barriga como solo sagrado, e a resistência dos guerreiros quilombolas na luta por liberdade, respeito e justiça social. Na ocasião, também foi escolhido por unanimidade a denominação, a palavra de origem africana (cultura banta) Anajô que significa Liberdade e nasceu oficialmente o GRUPO DE CONSCIÊNCIA NEGRA – ANAJÔ.

A temática negra passou a ter mais evidência nos espaços eclesiais, e nas celebrações foram incorporados instrumentos africanos a exemplo do atabaque, pandeiro e ganzá. E também passaram a enfrentar críticas e preconceitos dentro da própria comunidade.

Em junho de 1989, o Anajô é convidado para conhecer a organização dos Agentes de Pastoral Negros do Brasil (APNs) – entidade nascida do diagnóstico de exclusão negra nos espaços sociais e eclesiais. Durante o Encontro Norte-Nordeste da entidade em São Luiz do Maranhão, ocorreu uma forte empatia com a metodologia das discussões e celebrações, o que resultou na filiação à entidade nacional que havia rompido as fronteiras do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Agora, era um dos mocambos (grupos de base) e passou a ser conhecido por Mocambo de APNS Anajô; e passaram a incorporar cânticos, danças circulares, instrumentos percussivos, os “mushakás” enquanto momentos místicos de reflexão, textos trabalhados com leituras coletivas, palestras e aprofundamentos.

Logo, surgiram outros mocambos veiculados aos APNS no estado de Alagoas, que contribuíram efetivamente para a organização do movimento negro local. O Anajô a partir da sua interação passou a ter uma presença mais efetiva, fomentando e articulando a criação da Coordenação de Entidades Negras de Alagoas (CENAL), atualmente transformada em Fórum de Entidades Negras de Alagoas (FENAL). Também contribuiu nas atividades realizadas na Serra da Barriga, programações afro-culturais na Praça dos Palmares em Maceió e com ações reflexivas no dia 21 de março (Dia Internacional de Combate ao Racismo).

No decorrer dos anos os membros do ANAJÔ, na sua maioria, optaram pelo afastamento para cuidar de suas vidas pessoais e profissionais. Alguns preferiram participar em outras formas de atuações, também adentraram nas Universidades, ou foram para outros grupos afro-culturais-políticos. A partir daí, na década de 1990, o grupo passou por um processo de desarticulação e entrou em um longo período de “recesso”.

REARTICULAÇÃO

Após várias reuniões preparatórias e a busca constante de novos integrantes comprometidos com as questões étnicorraciais, finalmente no dia 29 de dezembro de 2005, o Anajô foi oficialmente rearticulado em Alagoas. Porém, o grupo renasce enquanto organização não-governamental e juridicamente passa a receber uma nova nomenclatura: Centro de Cultura e Estudos Étnicos Anajô.

A entidade busca garantir a continuidade e a implementação de ações sócio-políticas e culturais, além de contribuir de forma efetiva na construção de novos projetos que favoreçam a conscientização étnica e no combate do racismo e preconceitos correlatos. Na sua organização administrativa possui: Presidente, Vice-Presidente, Secretário Geral e Comunicação, 1º Secretário de Finanças, 2º Secretário de Finanças, Secretário de Cultura, Secretário de Formação e Pesquisa, além do Conselho Fiscal (três titulares e dois suplentes).

Dentre os objetivos estão: promover estudos sobre a história do Quilombo dos Palmares e a conjuntura sócio-política da população brasileira, atingindo vários eixos – mulher e crianças negras, comunidades remanescentes de quilombos, nações indígenas, educação, saúde da população negra, identidade cultural, geração de emprego e renda, política de igualdade racial, etc.

No dia 20 de dezembro de 2009, o Anajô retorna ao cenário nacional e ao quadro de entidades associadas aos Agentes de Pastoral Negros do Brasil (APNs), seguindo o lema “Organização, fé e luta”, e possui a missão de fortalecer a organização estadual. Atualmente, possui dois representantes na Coordenação Nacional para a gestão 2015-2018. ocupando as funções de Coordenador Geral e a coordenação da Comissão Nacional da Relação de Gênero.

 

Fonte: Pereira, Helciane Angélica Santos. PALMARES IN LOCO: Estratégias de Comunicação, Marketing e Identidade Étnicorracial.  Trabalho de conclusão de curso na Pós Graduação em Comunicação Empresarial. Maceió-AL: Cesmac, 2010.

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